Occupy Shopping - o movimento dos jovens da periferia

Occupy Shopping, o movimento de jovens da periferia

É muito difícil aprender as lições da história enquanto ela se desenvolve. As evidências saltam aos olhos para alguns, e dissolvem-se no ar para tantos outros. Falo assim ao reportar-me ao episódio dos rolezinhos, nome dado à movimentação da juventude pobre de algumas capitais. Os jovens queriam contemplar, quem sabe aqui e ali até comprar, aqueles obscuros objetos do desejo a cada segundo ofertados pela publicidade. Obscuros, e nem tanto. Ou obscuros em alguns casos porque inalcançáveis. Mas, por que não ter o direito de contemplar?

Nos governos de Lula e de Dilma, houve um extraordinário crescimento do mercado interno. Houve distribuição de renda. Houve a ascensão dos mais pobres a condições mais dignas. Deu-se que o mercado brasileiro – para ficar nessa terminologia – não se restringe mais a coisa de 30 milhões de pessoas. As pessoas compram muito mais. E a juventude cuja renda não permite a aquisição desse estonteante acervo de novos objetos do desejo, ao menos pretende fazer a visitação. Olhar a parafernália eletrônica de última geração, os tênis que tudo podem, as roupas de grife, os notebooks, as televisões tela plana, esse admirável mundo novo apresentado por um capitalismo que não cessa de se reproduzir.

EMILIANO JOSÉ  - Brasil 247


O Shopping JK Iguatemi, em São Paulo – onde mais poderia ser? –, conseguiu liminar que o autorizou a impedir a entrada em suas instalações de “adolescentes desacompanhados”. A punição por desobediência, 10 mil reais.

A tal liminar estendeu-se automaticamente a outros shoppings da grande São Paulo e de algumas cidades do interior do Estado.

Em um desses espaços abertos ao público, situado no bairro suburbano de Itaquera, ao contrário do que ocorreu no JK Iguatemi os manifestantes do movimento “rolezinho” não ficaram só na promessa e efetivamente compareceram, o que fez com que fossem agredidos pela polícia.

Apesar da truculência policial no shopping da periferia, foi no do bairro nobre paulistano que a discriminação se fez sentir com mais força. Seguranças faziam uma “triagem” de quem podia e de quem não podia entrar – em Itaquera, pelo menos os jovens puderam entrar, ainda que só para poderem ser expulsos no tapa.

As imagens podem esclarecer quem podia ou não entrar nos shoppings protegidos por liminar. Mostram uma “triagem” presumivelmente baseada em critérios inconstitucionais como traços físicos.

Segundo o artigo 5º, inciso XVI da Constituição Federal, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização”.

EDUARDO GUIMARÃES  - Brasil 247


A reação da Casa Grande diante da mobilidade urbana e do direito de ir e vir da juventude popular brasileira é assustadora. A juventude negra e periférica não é bem-vinda nos espaços de consumo da classe média branca? O Estado de exceção e a violência contra os pobres nas favelas terão uma igualmente vergonhosa polícia de comportamento como foi a repressão ao funk?

A incapacidade do mercado e do Estado de entender as novas formas de sociabilidade e mobilidade dos jovens traz à cena o velho horror das classes populares e o apartheid racial, social e cultural. À racialização da repressão nas favelas se acrescenta o seu complemento e suprema perversão: a racialização dos espaços de consumo!

O que é insuportável para certa classe média é ter a periferia negra e pobre nos seus espaços de exclusividade e de poder, frequentando a Casa Grande (os shoppings, as companhias aéreas, a Universidade com as cotas, fazendo mídia e nos espaços de poder/lazer) e se apropriando e ressignificando e zoando com o mundinho de distinção das grifes, marcas, autores, músicas.

O rolezinho também expõe a crise das cidades e a privatização dos espaços públicos e o desinvestimento nos equipamentos de lazer, parques, pistas, quadras e praças.

O Occupy Shopping da periferia é uma manifestação política, com ou sem intenção. O esquema de segurança dos shoppings é a ostentação do fracasso do Estado e da sociedade na partilha da cidade.

2014 começa com uma fratura exposta. Se a sociedade brasileira não redistribuir renda e valor, só vai agravar o processo de produção de crime e desigualdades. É uma democracia mínima essa: partilhar o conforto, o ar condicionado e a praça de alimentação ou "não vai ter shopping"!

IVANA BENTES  - Brasil 247